Devaneios
Sentaram os dois ali, em qualquer canto de calçada, sujando a bunda com a cal branca da guia e as mãos, ora frias e inquietas, agora repousavam forte umas nas outras.
Tentativa inútil de não perder de novo, sem perceber que se conheceram pra isso.
Ameaçaram algo como “eu começo ou tu?” e já foram vomitando tudo o que havia provocado engasgos todo esse longo ano.Sem esperar pelo outro.
Falaram-se muito e ouviram-se pouco. Ele menos, ela mais. Gostava de guardar todas as palavras que ele tinha pra dizer, doces ou azedas. Tinha um encanto especial por cada letrinha, cada citação, cada forma de falar, de corrigi-la até, por vezes, coisa que ela odiava, mas abria toda concessão pra ele, que sempre pôde quase tudo.
Quanto mais calada ficava, dividia a atenção entre os olhos fortes dele na boca dela e a tentativa de entender que tipo de domínio era aquele. Que diabo ela poderia fazer pra evitá-lo. E não encontrava sentido nem pra um nem pra outro.
Quanto mais perto ela se deixava ficar, menos entendia que espécie de formigas ele havia deixado ali por dentro, capazes de causar sobe-desce por tanto tempo. Sem regar sem cuidar sem cultivar. Formigas danadas abandonadas e resistentes ao tempo a novas conquistas a sentimentos novos e velhos. Danadas.
Ele não era nada do que ela queria, um covarde. Definia-o bem. Covarde.
E o covarde, aproveitando os escapismos da moça-tão-certa-que-não-o-queria, a puxou pelo braço, sem sequer pedir licença e decretou: a partir de hoje, não te permito me esquecer um só dia.
Ah, idiota!!!!!!!!!!!!
* * * * * * * * * * * * *
Ao som de "Tocando em frente" na voz da Maria Bethânia.
8 Comments:
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venho por meio desta te informar...que por te conhecer...e respondendo a mensagem que tu mandou no meu celular "nem tanto minha amiga, nem tanto".
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