26.9.05

Devaneios

Sentaram os dois ali, em qualquer canto de calçada, sujando a bunda com a cal branca da guia e as mãos, ora frias e inquietas, agora repousavam forte umas nas outras.
Tentativa inútil de não perder de novo, sem perceber que se conheceram pra isso.

Ameaçaram algo como “eu começo ou tu?” e já foram vomitando tudo o que havia provocado engasgos todo esse longo ano.Sem esperar pelo outro.

Falaram-se muito e ouviram-se pouco. Ele menos, ela mais. Gostava de guardar todas as palavras que ele tinha pra dizer, doces ou azedas. Tinha um encanto especial por cada letrinha, cada citação, cada forma de falar, de corrigi-la até, por vezes, coisa que ela odiava, mas abria toda concessão pra ele, que sempre pôde quase tudo.

Quanto mais calada ficava, dividia a atenção entre os olhos fortes dele na boca dela e a tentativa de entender que tipo de domínio era aquele. Que diabo ela poderia fazer pra evitá-lo. E não encontrava sentido nem pra um nem pra outro.

Quanto mais perto ela se deixava ficar, menos entendia que espécie de formigas ele havia deixado ali por dentro, capazes de causar sobe-desce por tanto tempo. Sem regar sem cuidar sem cultivar. Formigas danadas abandonadas e resistentes ao tempo a novas conquistas a sentimentos novos e velhos. Danadas.
Ele não era nada do que ela queria, um covarde. Definia-o bem. Covarde.
E o covarde, aproveitando os escapismos da moça-tão-certa-que-não-o-queria, a puxou pelo braço, sem sequer pedir licença e decretou: a partir de hoje, não te permito me esquecer um só dia.

Ah, idiota!!!!!!!!!!!!
* * * * * * * * * * * * *
Ao som de "Tocando em frente" na voz da Maria Bethânia.

8.9.05

Ó Patria Amada, Idolatrada, Salve, Salve!!!






penhor , no diciónário:
do Lat. pignores. m., objecto que se dá como garantia de uma dívida ou contrato;fig., testemunho;segurança;garantia;sinal;caução.

"... Se o penhor dessa igualdade, conseguimos conquistar com braço forte. "
Hino do Brasil

Quando a merda é definitivamente jogada no ventilador, primeiro vem a sensação de espanto, aquela própria de todo e qualquer tipo de escândalo. O mundo atônito parado em frente a televisão, acompanhando cada depoimento, passo a passo. Surgem os comentários que se iniciam tímidos durante o intervalo do café no trabalho, na hora do almoço em casa, quando opiniões divergem e convergem tendendo a um entendimento quase corporativo, e depois se alongam às mesas de bar, onde a conversa ganha uma passionalidade singular, emociona e une pessoas numa mesma corrente de indignação.

Esse é o sentimento inicial, regado a uma esperança de tudo se acertar e, ao mesmo tempo, a uma frustração doída, machucada por ter acreditado tanto e ter que se deparar com tamanha brutalidade.

Passadas as reações primitivas, chega a hora da pergunta: E agora? Queremos soluções, queremos culpados algemados atrás das grades, provando do gosto podre das celas tão renegadas por eles mesmos, tão esquecidas e largadas ao deus-dará. Queremos sabê-los violentados cruelmente, como são os estupradores, por terem ousado atacar a honra e a esperança de milhões de pessoas que esperavam, nada mais, nada menos, que alguém que olhasse por nós dessa vez.

Como se achar no direito de ludibriar uma nação e tirar dela tudo o que lhe restava? Como cometer um ato tão cruel e ficarem impunes? Passam, agora, dias e noites a elaborar defesas teatrais, onde ainda reservam momentos especiais para o choro e até para o riso!!

Não se faz isso, Ilustres Parlamentares, Excelentíssimo Senhor Presidente. Não se tira a esperança de um povo assim, porque quando se age levianamente dessa maneira, tudo o que resta é violência. E dela, estamos fartos.
A nossa juventude está cada vez mais estática perante toda essa falta de expectativas. Já não conseguimos mais imaginar o futuro como um momento próspero, senão como se fôssemos sócios anônimos dessa empresa falida. Não queremos emigrar para qualquer lugar desse mundo, onde não entendam nossa língua, e acharmos mais digno lavar o chão lá do que “ser doutor” aqui. Queremos desvencilhar a nossa cultura da prostituição, da corrupção e do jeitinho brasileiro. Queremos poder exaltar a magia de um povo que canta e dança e trabalha e faz história.

“É, a gente não tem cara de panaca, a gente não tem jeito de babaca, a gente não está com a bunda exposta na janela pra passar a mão nela. A gente quer viver pleno direito, a gente quer viver todo respeito, a gente quer viver uma nação, a gente quer ser um cidadão.”
Grande Gonzaguinha